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Padre Theodor Amstad: o pai do cooperativismo

Padre Theodor Amstad: o pai do cooperativismo

Padre Theodor Amstad: o pai do cooperativismo

O ano era 1885 quando o Padre Theodor Amstad desembarcou no Brasil aos 34 anos de idade. Estudou em Beckenried, na Suíça, onde nasceu, e também na Áustria, Holanda e Inglaterra. Na bagagem, trouxe a vivência do envolvimento familiar com o associativismo e da juventude em meio a transformações sociais ocorridas na Europa do século XIX, como surgimento do cooperativismo.

O jesuíta, designado a atuar no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo e depois São Sebastião do Caí, tinha como missão percorrer capelas em colônias pelo interior, viagens que realizava sempre montando uma mula. Nas peregrinações, conheceu de perto a realidade dos moradores, pequenos agricultores familiares de descendência alemã (e algumas colônias italianas), que necessitavam de organização financeira e de comercialização dos produtos. “Por seu trabalho itinerante, ele se denominava ‘Caixeiro-viajante de Deus’”, comenta Mário Konzen, membro do Conselho Administrativo da Cooperativa Sicredi Pioneira RS.

Acreditando que a solução para o desenvolvimento econômico-social dos colonos estaria no cooperativismo, passou a ensinar sobre o tema. Muitos de seus discursos seguem atuais. Falas eloquentes, com linguagem direta e simples, abordavam os problemas locais, exaltavam a importância do agricultor e das riquezas produzidas, e objetivavam uni-los em associações cooperativas, para que assim pudessem evoluir economicamente; orientavam, mas cobravam ações concretas.

O professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) José Odelso Schneider exalta a determinação missionária de Padre Amstad. “Em sua época itinerante, em meio a estradas perigosas, ele foi de São José do Hortêncio a Cerro Largo, e de lá à província de Missiones (na Argentina), visitar colonizações que tinham fundado cooperativas de crédito rurais”. Um percurso de cerca de 600 km, feito mais de uma vez.

A Pioneira

Em 1902, foi fundada a primeira cooperativa no Brasil, a Caixa de Economias e Empréstimos Amstad, atual Sicredi Pioneira RS, por Pe. Amstad e mais 19 agricultores familiares da Linha Imperial, em Nova Petrópolis (seguindo o sistema implantado por Friedrich Raiffeisen, na Alemanha). Hoje, ela faz parte do Sistema Sicredi e reúne 155 mil associados.

Após esta, outras foram se formando a partir da mobilização do padre. Já havia mais de uma dezena (além da associação católica Sociedade União Popular, Volksverein, criada ainda em 1912) quando um acidente com a mula obrigou Amstad a se locomover por cadeira de rodas e cessar as viagens, em 1923, mas não o projeto missionário. Recolheu-se em São Leopoldo e secretariava as organizações a distância. Escreveu mais de 600 cartas para acompanhar a evolução de cada cooperativa, até sua morte, em 1938. “Ele dizia que as coisas precisavam de ordem. Na época, a comunicação era toda à mão, ainda assim fazia cópia de todas as cartas que escrevia para arquivar”, conta Mário Konzen. Em seu período recluso, ele redigiu ainda um livro sobre o centenário da imigração alemã no Brasil e sua autobiografia. Regularmente, escreveu artigos para o jornal “Der Bauernfreund” (o amigo dos colonos), e revista “Sankt Paulusblatt” (Folha de São Paulo), publicados em alemão, esta última ainda em circulação em Nova Petrópolis.

À frente de seu tempo

Em uma época de rígidas tradições ele, seguindo o princípio cooperativo de não discriminação, congregou cooperativa e ecumenicamente católicos e protestantes. Também estimulou a participação feminina, afirmando que suas opiniões eram igualmente importantes. “Amstad teve uma visão ontológica de que o ser humano é importante. Chama atenção essa liderança, o conhecimento profundo do que dizia, a forma de se expressar, a vontade política, mas a maior motivação era religiosa, estabelecer relacionamento como irmãos, um ajudando o outro”, declara Vergílio Perius, presidente do Sistema Ocergs-Sesccop/RS. O padre também defendia questões ambientais. “Dizia que era preciso cuidar da natureza, se derrubasse uma árvore, era preciso plantar outra, e explicava o porquê. Falava ensinando”, comenta Konzen.

Por seu trabalho missionário pautado em encontrar soluções às dores da comunidade, Amstad revolucionou também ao mobilizar outras importantes ações, com o Volksverein, como a construção de um leprosário e um orfanato às crianças separadas dos pais leprosos, asilo, escolas, criação de colônias pelo interior até então inexplorado do Rio Grande do Sul, e formação de parteiras que auxiliassem as mães nessas novas comunidades, até uma agência para intermediar empregos a alemães, em Porto Alegre, durante a Primeira Guerra Mundial. “Sempre que preciso de uma referência, procuro nele. A maneira como trabalhava, objetivando fazer o certo, atento às necessidades da comunidade, a espiritualidade que carregava… seus ensinamentos me inspiram”, revela Konzen.

Ele era inspiração também às pessoas da época.Pe. Amstad era assertivo na identificação de líderes, os quais motivava e capacitava tecnicamente. O professor da Unisinos José Odelso Schneider aponta que pode ser visto como legado das ações de Amstad a continuidade no ensino do cooperativismo pelos jesuítas. “Fundamos o curso de Especialização em Gestão de Cooperativas, em 1976, uma contribuição à qualificação dos dirigentes. Também demos subsídios a professores da educação fundamental para implantação do ensino de cooperativismo nas escolas, hoje um projeto mantido pela Sicredi em diversos estados”.

Preservação histórica

Em dezembro de 2019, Pe. Theodor Amstad foi oficialmente reconhecido como Patrono do Cooperativismo no Brasil. Sua história é preservada na comunidade Linha Imperial, em Nova Petrópolis, onde fica seu túmulo, o monumento em sua homenagem e o Memorial Padre Amstad, instalado no prédio histórico da primeira sede própria da Sicredi Pioneira RS. Anualmente, cerca de três mil visitantes passam pela Linha Imperial para conhecer o berço do cooperativismo brasileiro e pisar no mesmo solo que Pe. Amstad.

Fonte: MundoCoop